Conto e Poesia

SOBRE O SILÊNCIO





PLÁSTICO-BOLHA

Dentro do meu automóvel-bolha observo, atordoado, a fronteira vigiada. Gambés altivos em suas viaturas-bolha guardam a lei em seus coldres.

Roupas-bolha passam assustadoramente assustadas carregando o peso de suas pastinhas 007 com docs inúteis e a comprovação de que estão na bolha, de que têm uma bolha. A bolha é frágil, mas é perigoso sair da bolha.

Os sem-bolha perambulam vasculhando pedrinhas no chão em busca daquela que dará o soco na boca do estômago e brilho, brilho ao concreto, brilho ao desejo da bolha, brilho à bolha mãe.

Bolhas compartimentadas em quadrados iluminados por luzes foscas, amarelas de Tifo, decoram o ambiente e delimitam a fronteira. E as roupas-bolha passam, seguindo em direção aos bares-bolha para estourar as bolhinhas do plástico-bolha.

Sou observado pelo sem-bolha estraquinado que vigia a fronteira. Em seu bolso a lei afiada e as pedrinhas do tabuleiro.

É... É assim... Da casa-bolha para o trabalho-bolha para o restaurante-bolha para o banco-bolha para o trabalho-bolha para o  bar-bolha para o automóvel-bolha para o templo-bolha para a casa-bolha para o tubo-bolha eletro-eletrônico que imita a vida.
Eu berro. Berro... Berro... Corro...
Chego a casa-bolha, me dispo de minha roupa-bolha e olho meus filhos dormirem.
Dorme criança... Dorme...
É Criolo... "Não precisa morrer pra ver Deus..."



NO ALVO

Mirei e atirei! Errei!
Mais uma vez... clic...
Falhou!
Era a última bala!
Não!!! A luz apagou!Não vejo a mira! Onde estão as balas?
Ah, só tenho mais duas! Amanhã compro mais!
Engatilhei... Tiro seco! Mas... e a mira? Será que acertei? Darei mais um tiro!
Como vou saber se acertei?
Ah!!! Tenho velas! Puta que o pariu! Onde estão os fósforos?
Isqueiro!!! Rá!!!
Tsc! Primeiro fumo um cigarro! Gosto de ver a brasa no escuro fazendo desenhos.
Velas... Isqueiro... O dia está nascendo!
Posso esperar mais um pouco! Vou abrir a janela! Quero ver o sol nascer!
Ai merda! Chutei a mira!
Foda-se!!!
Vou ver o sol!
....................................................
Que dia lindo!
Ah! Ia me esquecendo! A mira!
Nossa! Que sorte! Dois tiros bem no alvo! Legal!
Agora vou tomar café!
Preciso comprar balas pro meu revólver e de hortelã pra mim.
Talvez um alvo novo.
É! Um alvo novo!
Agora serão dois!
Um à frente e outro às minhas costas!

  

ASAS ARRASTADAS

Aprende-se a andar,
evita-se o correr.
Ensina-se a falar,
proibe-se o dizer.
Coloca-se a rabiscar,
censura-se o escrever.

De um tudo é feito
para que aquilo que seja fato,
não se sabe de onde fôra dito,
permaneça como lei,
que reja o espírito
na base da correia
do grilhão e do veneno
desde menino
até o último suspiro.

E, se por um sarcasmo genético
a voar o Homem fosse afeito,
em suas asas de porte magnífico
seria atado o peso sorumbático
das verdades absolutas de uso terapêutico.

E no chão áspero
andaria curvado
arrastando sôfrego
os pesos mortos
de suas asas e do concreto.



A CURA DO POETA

O poeta escreveu, mas sua poesia de imagens fortes e frases bem colocadas não cessou a sua dor, não cessou a guerra, não cessou o ódio.
Sua poesia, única e incapaz, não tornou o homem mais inteligente, não tornou o homem mais pacífico, não tornou o homem mais amado, mais amante.
Não tornou o homem mais homem.
Sua poesia de frases feitas circula como receita do remédio para a cura.
Mas não cura.
Sua poesia é inútil, mas é bela!



ELA
Lá estava ela sobre o corpo amarelo, frio e duro, estirado no caixão de madeira nobre. Ela, silenciosa e sorrateira, aguardando o momento em que todos os que choravam fossem embora, para que com privacidade pudesse se alimentar e alimentar as suas crias. Ela, no auge de sua natureza, tão inerte quanto o corpo que tomava a posse, comemorava com recolhimento e placidez a sua vitória.



JARDIM DESCOBERTO
Não há tempo para arrependimentos, não há mais como voltar.
Daqui pra frente perdem-se todos os valores em busca de novas pairagens.
Tudo deve ser realizado com violência desmedida, nada deve ser evitado ou escondido.
Cada passo meticulosamente descuidado deve pisar grosseiramente o jardim descoberto, deixando pegadas a serem seguidas quando o sol raiar.
Todos os pudores devem ser deixados de lado junto com a roupa suja e empoeirada.
Não há porque voltar!
Estende-se aos olhos o horizonte que não se pode ver na noite negra.
Às costas apenas a grande caverna com as paredes repletas de imagens que o fogo ilumina.
É preciso ir adiante e colocar-se no meio de tudo até que o sol do meio-dia surja sobre a cabeça.



INSPIRAÇÃO

Jato violento, vertiginoso, vagabundo, voraz. Gota a gota transborda o tempo instante infinito.






AGORA
Seria apenas gesto se não fosse ato.
Seria apenas grito se não fosse berro.
Seria apenas toque se não fosse soco.
Seria apenas carmim se não fosse sangue.
Seria apenas acaso se não fosse fato.
Seria apenas absurdo se não fosse sentido.
Seria apenas fim se não fosse começo.